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Um Conto de Natal

Quanto às prendas do Natal, dizia-se às crianças que era o “Menino Jesus” quem dava as prendas. Nada de Pai Natal e essas coisas ! O Menino Jesus era quem dava as prendas. Então nós sabíamos que à meia noite da véspera de Natal, o Menino Jesus descia pela chaminé e ia pôr os presentes no nosso sapatinho que nós, nessa noite, antes de nos deitarmos, lá íamos colocar, na chaminé, muito compenetrados e cheios de esperança que o presente que o Menino Jesus lá ia pôr fosse mesmo aquele que nós mais desejávamos. Senão … só para o ano, talvez !…

Tu estás mesmo a calcular qual era a ansiedade dos meninos por aquele momento em que íamos descobrir o presente deixado no sapatinho pelo Menino Jesus ! O Menino Jesus, um ser divino, nessa noite  preocupava-se connosco! Era uma noite maravilhosa. Quase nem se dormia, pensando com emoção naquele mistério …

Pois eu também não dormi em certa noite de Natal. Então o que havia de me acontecer ? Acordado como estava, reparei que apesar de ser de noite, havia luz no quarto ao lado do meu quarto de dormir. E havia vozes que falavam muito baixinho. Escutando melhor, eu descobri que eram as vozes do meu Pai e da minha Mãe. Ao mesmo tempo ouvia um ruído invulgar. Parecia o ruído de papéis, como se estivessem a desembrulhar qualquer coisa …
Não se deve fazer, mas confesso que eu fiz ! Escutar às portas, não é muito bonito …

Pois o que eu escutei, foi a maior desilusão da minha vida. O que os meus Pais estavam a fazer era a desembrulharem os brinquedos acabados de comprar, para porem no meu sapatinho! Foi um grande choque. Acabou-se a ilusão de que o Menino Jesus não era, como eu julgava, quem se lembrava de mim naquela noite fantástica …

Foi triste ! A revelação daquele segredo, de que  a dádiva divina do Menino Jesus afinal não existia,  causou-me uma profunda tristeza.

No outro dia de manhã, quando os meus Pais me levaram a ver o sapatinho na chaminé, eu não confessei que sabia a verdadeira origem dos brinquedos.

Talvez eu nessa altura praticasse uma feia acção, porque foram os meus Pais que ficaram iludidos. Eles  não ficaram a saber que eu tinha descoberto o seu segredo.
A partir daquele dia o Natal perdeu para sempre o seu verdadeiro encanto.

Conto enviado por Afonso Costa Ferreira, 84 anos. Natal de 2008