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Poesia – Envelhecer

  Maturidade

Foi-se o tempo da mocidade…
Vejo a mim mesma: teria a criatura
se tornado uma reles caricatura,
ao atingir a plena maturidade?

Devo apenas viver de saudade
prantear só tristeza e amargura,
manter de um alquebrado a postura,
vivendo ao largo, longe da humanidade?

Recuso-me a este enredo pertencer!
Na história da minha vida errante
este será o capítulo mais vibrante.

Quero ainda crer, proclamar vitórias
ser amada e viver muitas glórias,
na sabedoria que o tempo me conceder.

Giulia Dummont

 
Nós

Quando as folhas caírem nos caminhos,
ao sentimentalismo do sol poente,
nós dois iremos vagarosamente,
de braços dados, como dois velhinhos,
e que dirá de nós toda essa gente,
quando passarmos mudos e juntinhos?
— “Como se amaram esses coitadinhos!
como ela vai, como ele vai contente!”

E por onde eu passar e tu passares,
hão de seguir-nos todos os olhares
e debruçar-se as flores nos barrancos…

E por nós, na tristeza do sol posto,
hão de falar as rugas do meu rosto
hão de falar os teus cabelos brancos.

Guilherme de Almeida


Avó-Ciranda
Minha avó é cadeira de balanço
a cavoucar minha memória.
Avó-ciranda, que pensa em bandas
enquanto acalenta crianças.

Avó cheia de estrada,
avó cheia de ciranda.

Avó-cântaro, que extrai leite das vacas
e dá de beber a quem tem sede.
Avó-cesta, que escolhe batatas
e prende no véu as madeixas.

Avó cheia de estrada,
avó cheia de lágrima.

Minha avó-ciranda,
que cheira a batatas e a leite,
é mulher-coruja,
nascida das raízes do carvalho.

Avó cheia de estrada,
avó cheia de orvalho.

A avó que em mim dorme
embala a menina que ora canta.
Minha avó desperta a dor
de eu ser minha própria criança.

Rosy Feros


A Velhice

Olha estas velhas árvores, mais belas
Do que as árvores moças, mais amigas,
Tanto mais belas quanto mais antigas,
Vencedoras da idade e das procelas…

O homem, a fera e o inseto, à sombra delas
Vivem, livres da fome e de fadigas:
E em seus galhos abrigam-se as cantigas
E os amores das aves tagarelas.

Não choremos, amigo, a mocidade!
Envelheçamos rindo. Envelheçamos
Como as árvores fortes envelhecem,

Na glória de alegria e da bondade,
Agasalhando os pássaros nos ramos,
Dando sombra e consolo aos que padecem!

Olavo Bilac


Rugas

Já começo a ter as primeiras rugas
Rugas…
Começam-me a nascer as primeiras rugas
Rugas de chorar
Rugas de sorrir
Rugas de cantar
Começo a franzir
Rugas de chorar
Rugas de cantar
Rugas de sentir
Rugas…

Rugas…
Já começo a ter as primeiras rugas
Rugas…
Começam-me a nascer algumas rugas

António Variações