Poesia – Envelhecer
…Ninguem viveu a vida que eu vivi
Ninguem sofreu na vida o que eu sofri
As lágrimas sentidas,o meu sorriso franco
Refletem-se hoje em dia nos meus cabelos brancos
E agora em homenagem ao meu fim
(trecho da música “Cabelos Brancos” de Caetano Veloso).
Velho
Parado e atento à raiva do silêncio
de um relógio partido e gasto pelo tempo
estava um velho sentado no banco de um jardim
a recordar fragmentos do passado
Na telefonia tocava uma velha canção
e um jovem cantor falava da solidão
que sabes tu do canto de estar só assim
só e abandonado como o velho do jardim?
O olhar triste e cansado procurando alguém
E a gente passa ao seu lado a olhá-lo com desdém
Sabes eu acho que todos fogem de ti para não ver
A imagem de solidão que irão viver quando forem como tu
Um velho sentado num jardim
Passam os dias e sentes que és um perdedor
Já não consegues saber o que tem ou não valor
O teu caminho parece estar mesmo a chegar ao fim
Pra dares lugar a outro no teu banco do jardim
O olhar triste e cansado procurando alguém
E a gente passa ao teu lado a olhar-te com desdém
Sabes eu acho que todos fogem de ti pra não ver
A imagem de solidão que irão viver quando forem como tu
Um resto de tudo o que existiu quando forem como tu
Um velho sentado num jardim.
Mafalda Veiga
A Beleza Duma Ruga
Que rosto lindo eu vi hoje, rugoso,
Tão fascinante qual o duma criança!
Continha o mesmo brilho radioso,
Continha a alegria pura duma dança…
É um brilho de amor por ser-se homem
E pela fé confiada na existência;
É como se o amanhã unisse o dia d’ ontem
É como se o amanhã fosse a nossa essência!
Nos rostos deslumbrantes por que passas:
Um duma criança linda renascida
Ou a cara dum velho bem franzida
Reluz futurecida a acção de graças.
Pois, uma ruga é prémio incontestável,
É o colo mais feliz da transcendência!
E é assim que se é criança admirável,
E é assim que finda a vida em sapiência
Eugénio de S. Vicente
Envelhecendo
Envelheço, sim, com orgulho!
Que quererias?!
Que pedisse emprestadas horas
Às gerações vindouras,
Eu, que findo?!
Cabe-me olhar amplo,
Que já vi tanto
E resisti de sobejo.
Cabe-me ser tronco,
Que não ramo prometendo
Florir sem fruto.
Cabe-me ser esteio
Aos que no vento se arrojam.
Serenamente aguardo o sagrado limbo
De onde emergi e onde mergulharei
Atavicamente
De novo.
Maria Petronilho
Pior Velhice
Sou velha e triste. Nunca o alvorecer
Dum riso são andou na minha boca!
Gritando que me acudam, em voz rouca,
Eu, náufraga da Vida, ando a morrer!
A Vida, que ao nascer, enfeita e touca
De alvas rosas a fronte da mulher,
Na minha fronte mística de louca
Martírios só poisou a emurchecer!
E dizem que sou nova… A mocidade
Estará só, então, na nossa idade,
Ou está em nós e em nosso peito mora?!
Tenho a pior velhice, a que é mais triste,
Aquela onde nem sequer existe
Lembrança de ter sido nova… outrora…
Florbela Espanca


