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A verdade sobre Humpty Dumpty

… Perder é uma arte nada dificil de praticar. Agora que começo a cair do alto deste muro, vejo claramente visto que não é nada difícil dominar esta arte sem par. Ele há tantas coisas em nosso redor que gostariam de ser perdidas, mas que têm vergonha de nos deixarem e por isso preferem que sejamos nós a perdê-las!…
 
A verdade é que esta arte deve ser praticada com persistência e ritmo, todos os dias, perdendo uma coisa cada dia que passa. 
E a cada coisa perdida convém refletir que perder não é desastre nenhum. 
 
Aceitemos, portanto, a contrariedade de perdermos pequenas coisas familiares, coisas quotidianas, como por exemplo uma chave ou uma hora mal passada, uma hora que a memória se recusa a registar e o coração dispensa como fardo inútil para o resto da viagem. (…)

Depois devemos de ir mais longe e perder coisas que de facto nos fazem mesmo falta. um rosto de rara beleza e encanto, uma carícia de que nos sentiamos credores de alguém que amavamos, um nome a que davamos uma aura absoluta entre todos os demais nomes do universo, uma cidade onde nos sentíamos bem bem em dada altura da vida (…) 

Depois convém perder cada vez mais depressa e amiúde, como se as mãos estivessem rotas e não pudessemos segurar nelas tanta coisa.

Perder recordações, promessas patéticas, livros queridos, paisagens entrevistas, toda a obra de Kafka, poentes deslumbrantes, as canções de Schubert, manhãs na praia, sabores de frutos comidos com delícia, horas inolvidáveis com outro ser a nós colado com êxtase, noites feéricas de amor … (…)
 
 Perder é preciso, na vida não se faz outra coisa …

 João Medina in JL edição de 20/5/98