Avô-neto: uma relação de afecto
Adicionada | 28 Fevereiro 2010 por TiO
O diálogo avô-neto vem se modificando e tem sido fundamental para a formação integral do neto, principalmente nos aspectos cultural, psico-evolutivo e formativo.
O aspecto cultural traz para a relação um elemento impar: o avô representa o passado que a criança não viveu e que lhe é importante (e necessário) para enfrentar o futuro, pois o avô lhe dá o “sopro da experiência” insubstituível no exercício de compreensão intelectual das situações.
O avô serve, além disso, de estímulo à criatividade do neto que através da contribuição da sua experiência, memória, motivação, linguagem, paciência, tempo, … se enriquece na apropriação de um património transmitido e pessoalmente vivido.
Esta troca cultural é também uma troca afectiva entre o avô e o neto que além de estimular a potencialidade intelectual e relacional de ambos, favorece a manutenção da memória histórica permitindo a redescoberta de uma presença activa do velho na família, riqueza esta que a sociedade nem sempre reconhece e aprecia.
No aspecto psico-evolutivo o avô desenvolve um papel altamente positivo no auxílio da estrutura do EU da criança enquanto passam a fazer parte, como suporte, de inúmeros processos projectivos, de autonomia, de perdas, de separações e de lutos próprios de cada fase do desenvolvimento psicológico infantil. O avô representa, além do mais, um elemento mediador em grau de favorecer uma maior compreensão entre o neto e o filho, pois desenvolve uma função mediadora no conforto de episódios e revoltas instintivas das crianças para com os pais, que seriam muito angustiantes se projectassem directamente sobre eles.
Através do avô as crianças podem descobrir as façanhas da infância dos pais e este conhecimento facilita a estruturação do seu SER infantil, pois é de muita ajuda para a criança saber que “o seu próprio pai” um dia foi uma criança e que não adquiriu o actual status sem passar por uma dinâmica evolutiva que ela própria deverá, agora, também percorrer. É inegável que a criança por si só, tem necessidade de ser protegida e guiada de modo competente pelos pais. É antes de tudo necessário que pouco a pouco se torne autónomo, mas este processo vem a ser facilitado com a testemunhos do avô que é capaz de auxiliar e relativizar as dificuldades, por já ter vivido a experiência de criar os próprios filhos. Longe de ferir a autoridade dos pais, o conhecimento da infância dos progenitores ajudará a criança a afrontar as próprias dificuldades à luz da experiência dos pais.
No aspecto formativo o avô é de ajuda ao neto na compreensão da vida e na experiência de separação e de morte. A criança percebe no avô um apreço pela vida, um orgulho de ver continuado a própria descendência, cada vez maior à medida que se avizinha a conclusão da própria existência. Esta percepção positiva da vida, adquirida na infância, poderá influenciar beneficamente seu comportamento nas idades seguintes.
A criança não deve ser excluída da experiência da morte do avô. Experiência que lhe permite viver (em uma dimensão psicologicamente aceitável) a perda do objecto do amor o qual por outro lado o conduz a viver a vida com várias modalidades: a separação do avô lhe dará a oportunidade de reforçar, em modo natural, a própria capacidade de superar a depressão e recorrer a mecanismos reparadores eficientes. Esta experiência da morte, do luto, pode ser considerada como o último presente que um avô faz ao próprio neto, um presente que deverá prepará-lo com amor para os vários anos da vida.
Os aspectos cultural, psico-evolutivo e formativo têm hoje maior possibilidade de efectivação, graças à frequência e ao prolongamento do tempo de contacto entre avô e neto.
O diálogo entre essas duas gerações pode, porém, ser dificultados pelas diferenças culturais e sociais: a rápida e radical mudança da nossa sociedade faz o avô de hoje se confrontar com o neto distraído pela TV, videojogos, computadores e outros instrumentos que não lhe permitem compreender nem a utilidade, nem a função, pois tem uma concepção de vida, de bem e de mal, de certo e errado … diferente da dos filhos e da dos netos.
A propósito, há poucos anos o avô ainda tirava a água do poço, lavava a roupa num tanque fora da casa, cozinhava no fogão a lenha, comprava a barra de gelo para o refrigerador, jogava cartas sentado em volta de uma mesa, e visitava os amigos. Hoje, pouco tempo depois, existe as torneiras eléctricas, botões de lavadoras, fogões a gás, fornos eléctricos e de micro-ondas, frigorifico e geladeira modernos, se joga cartas com os computadores e as notícias dos amigos chegam por fax, pelo telefone, pelo computador, por um cartão postal. Os pais, com o violão, faziam serenata sob a luz da lua; os netos se preparam para viajar à ela. Os avós eram os imigrantes ou os filhos dele numa terra virgem com tudo por fazer, os netos são os “gaúchos”, os “brasileiros”, onde tudo está pronto, só usufruir, manter, muitas vezes destruir. Os avós de outrora com quarenta anos demonstravam sessenta, hoje graças ao conforto e aos cuidados estéticos, as avós de sessenta demonstram quarenta.
Avô – Neto: uma relação de risco e afecto / Carmen Maria Andrade, Neila Barbosa Osório, Luiz Sinésio Silva Neto ─ Santa Maria: Biblos, 2008.
Contacto: Profª Drª Neila Barbosa Osório: neilaosorio@uft.edu.br
Coordenadora da Universidade da Maturidade
Coordenadora da Pós-Graduação em Gerontologia


