Os Amantes Clandestinos
Adicionada | 09 Dezembro 2009 por TiO
Não têm razão, mas importa sublinhar que os caprichos das hormonas ou almôndegas, como dizia a incomparável cozinheira dos meus avós! – podem acarretar sintomas bem concretos. A baixa de estrogénios provoca amiúde secura vaginal e aumenta as hipóteses de infecção. Em ambos os casos o coito torna-se doloroso, o que, por arrastamento, diminui o desejo sexual. Estas e outras possíveis alterações, como a maior dificuldade em atingir o orgasmo, sublinham a importância de uma consulta médica para discutir a estratégia a seguir, tanto mais que outros problemas, como a osteoporose, são frequentes. Os efeitos colaterais das medicações em curso devem também ser avaliados. O exemplo dos anti-depressivos é clássico, por aumentarem muitas vezes o peso (o que compromete a auto-imagem) e diminuírem o desejo.
Mas a nível sexual raramente as alterações se devem a causa solitária; importa salientar a dimensão relacional dos sintomas. Sentir menor desejo em corpo e espírito de quem se ama, perceber que o outro beija distraído antes de virar as costas e adormecer podem provocar mossa bem maior do que o envelhecimento das entranhas. E como reage o casal ao abrir de asas dos ganapos? Longe de mim negar as saudades que sofregamente se matam domingo ao almoço quando visitam casa – e mesa! – dos pais. Mas como ficou o ambiente depois da sua partida? Deixaram para trás duas pessoas que redescobrem o prazer de um namoro pacífico, cheio das pequenas cumplicidades que o tempo segrega, ou um silêncio pesado entre quem se habituou a só viver alegrias e tristezas provocadas pelo crescimento dos miúdos e já nada mais tem a partilhar?
Algumas doenças representam claros riscos para a função sexual, como a diabetes, a hipertensão, o alcoolismo, a esclerose múltipla ou a artrite (que pode simplesmente implicar o aconselhamento de outras posições ou a adaptação do horário da toma dos anti-inflamatórios). Certos procedimentos, como a cirurgia prostática ou a radioterapia, podem ter consequências indesejáveis. Quanto às medicações, é bom recordar que o envelhecimento, sobretudo o masculino, aumenta a probabilidade de verdadeiros “ramalhetes medicamentosos”. Salientaria algumas das drogas habitualmente receitadas para a hipertensão, bem como as anti-ulcerosas e as psiquiátricas. Ainda, e sempre, será arriscado tornar doença ou medicamento o único vilão da fita, a avaliação psicológica e do funcionamento do casal impõe-se em todos os casos.
Infelizmente não é raro homens pagarem fortunas por baterias de análises quando uma história clínica bem cuidada teria de imediato apontado para uma disfunção situacional o palavrão significa que ele não funciona com um(a) parceiro(a) determinado(a), mas perfeitamente com outro(a). Estranham os parênteses? É sempre útil lembrar que falamos das pessoas, independentemente da sua orientação sexual.
Com frequência vemos os homens caírem numa esparrela sedutora: buscar, quase com desespero, uma actividade sexual equivalente ou mesmo superior à do passado. Não pelo prazer obtido, mas como forma de negar, perante si próprios e os outros, o envelhecimento. Ou uma depressão que lhes começa a tornar difícil o arranque matinal e assustadoramente fácil a lágrima ao canto do olho. Acontece. Sobretudo porque o bom macho latino aceita mal que um encontro erótico não termine (ou se inicie!) obrigatoriamente por uma penetração para a qual deve estar sempre pronto.
E o carrossel das hormonas, constitui duvidoso privilégio das mulheres? No homem, as alterações hormonais influenciam mais o desejo do que a erecção, pelo que, nestes casos, as terapias mais recentes para a impotência estão condenadas ao fracasso.
Uma última palavra para conceito que faz correr rios de tinta: andropausa. Se por ela quisermos entender modificações hormonais sobreponíveis às encontradas nas mulheres aquando da menopausa, retiremo-la do nosso dicionário. Mas se, pelo contrário, a utilizamos para legenda de tempos de balanço sobre o que realizámos dos nossos sonhos e o que sonhamos para o caminho que nos resta, tudo regado com molho feito de alguma nostalgia e dúvidas sobre as nossas capacidades físicas e psicológicas, dir-vos-ei que a “andropausa” é frequente, talvez inevitável. E uso as aspas porque falo de ambos os sexos, afinal quem se pode gabar de não temer o veredicto de espelhos ferozes dentro de si?
Não raras vezes o casal descobre que se deixou invadir por uma rotina feroz que espezinha tudo. Incluindo o sexo, empurrado para sábado à noite porque apenas ao domingo esta vida alucinante permite um acordar mais preguiçoso. E, subtilmente, peso e responsabilidade do quotidiano cinzento caem mais sobre as mulheres, tidas por garantes da “saúde afectiva” do agregado familiar. Ou que pensar das mulheres divorciadas ou viúvas em meios culturais que lhes exigem o “decoro” respeitável e assexuado? Por vezes assisto ao fim do princípio de amores plácidos, elas debitam murmúrios resignados… “Os meus filhos são contra”.
Tristes, aceitam o seu destino: foram mães de uns, esposas de outros, empregadas de terceiros e pouco muito pouco! amigas de si próprias. Pois, os homens! Neles as alterações do funcionamento sexual costumam ser progressivas, o que, idealmente, permite uma melhor adaptação às novas regras do jogo. A maioria dos estudos refere uma diminuição de actividade a partir dos cinquenta anos (ó Diabo!), que se torna mais abrupta a partir dos setenta. Mas vocês sabem como abomino estas generalizações, cada um de nós parece ter nascido para desmentir as estatísticas e ainda bem. Debrucemo-nos sobre os factos: o desejo pode diminuir de intensidade e frequência; a erecção torna-se mais difícil e dependente de maior estimulação física, as fantasias sexuais por si só não dão conta do recado; as contracções orgásmicas são mais fracas e o ejaculado em menor quantidade; o período refractário, ou seja, o tempo necessário para obter uma segunda erecção, aumenta, chegando a estender-se por dias; diminui a frequência das erecções matinais e dos sonhos eróticos. E, no entanto, alguns homens contam-nos que o passar dos anos lhes resolveu problemas de ejaculação prematura e muitos referem que o prazer aumentou, por serem capazes de uma erotização mais global do corpo e da relação.


