Os Amantes Clandestinos
Adicionada | 09 Dezembro 2009 por TiO
Os Amantes Clandestinos I
Crónicas do Professor Júlio Machado Vaz

A nossa cultura aceita mal a existência de sexualidade nos idosos
Passemos ao título da crónica. Amantes. Triste sociedade esta que, de todos os significados presentes no dicionário, em geral apenas recorda o de “pessoa que mantém relações ilícitas com pessoa de outro sexo”. Ignorando outras que recordam paixões e namoros, dir-se-ia que aceitamos, resignados, que palavra orgulhosa de Abelardo e Heloísa, Romeu e Julieta ou Cyrano e Roxanne se veja exilada para o reino do mexerico: “Sabes com quem anda fulano?”. Para não falar do “outro sexo”, até o ilícito é negado aos homossexuais!
Imagino, leitor impaciente: “Está bem, homem, leve a taça! Mas chamar-lhes clandestinos? Isso não é conversa do tempo da outra senhora?”. Há clandestinidades que não dependem da existência de polícias políticas. O silêncio ou o escárnio chegam. Já repararam que ninguém se escandaliza com uma eventual repressão da sexualidade dos mais velhos? E, no entanto, quando projecto um diapositivo com dois a beijarem-se, escuto risos abafados pelo anfiteatro. Se paro e indago a razão, um dos meus meninos arranja coragem para dizer: “Ó, Dr., acha natural com aquela idade?”.
Por acaso acho, mas o mais grave é que os próprios interessados absorvem a mensagem. Ainda há pouco alguém me dizia ter iniciado uma relação e hesitar na palavra para a definir. E eu arrisquei: “Não será um namoro?”. Resposta clássica: “Se eu tivesse menos trinta anos seria, agora!…”.
Não há maior clandestinidade do que a auto-imposta. Envergonhados, vivemos os afectos escondidos de nós próprios. Amargos, consideramos que chegou o tempo de reforma e saudade. Quando a palavra paixão nos aguilhoa, enviamo-la para o exílio ternurento dos filhos e netos à volta do almoço de domingo. E, contudo, nada obriga a que nos sentemos à mesa com o erotismo perdido nas brumas da memória.
Regressemos à relação entre sexo e envelhecimento. Antes de mais, para referir que o aconselhamento sexual nesta área é cada vez mais procurado. Seguramente porque as populações envelhecem, as estatísticas e as dores de cabeça governamentais não mentem. Mas também porque alguns mitos se resignaram a ser apenas isso – mitos.
Tomemos o exemplo de um inquérito levado a cabo pelo Conselho Nacional Americano para o Envelhecimento. Das mil pessoas de ambos os sexos entrevistadas, todas com mais de cinquenta anos, 60% estavam satisfeitas com as suas vidas sexuais. Cerca de 61% diziam ser o sexo tão bom ou melhor do que na juventude e 70% tinham relações pelo menos uma vez por semana. Não menos elucidativo, das que afirmavam ser o sexo raro ou inexistente, 34% responsabilizavam pelo facto doenças variadas, a perda do parceiro ou efeitos colaterais de medicações. As queixas sexuais referidas eram semelhantes às dos mais novos, embora a frequência de coito e masturbação fosse menor. Os indivíduos para quem a actividade erótica fora satisfatória no passado, continuavam a destacar-lhe a importância, demonstrando como é falso o mito segundo o qual existiria o risco de nos “gastarmos sexualmente” enquanto jovens e, depois, velhos falidos, servirmos apenas para mimar netos, vencer campeonatos de sueca ou tricotar junto à lareira.
Mas devemos ter cuidado quando falamos de “pessoas”. Porque, em cultura, celebrando o individualismo, mas que ao mesmo tempo procura tornar-nos igualmente cinzentos, apáticos e passivos consumidores, torna-se ainda mais necessário evitar generalizações perigosas. Há quem acolha o envelhecimento como uma oportunidade para se retirar de uma vida sexual unicamente encarada no âmbito da procriação ou geradora de conflitos e culpabilidades por diversas razões. Respeitar trajectos e escolhas individuais é obrigatório, sob pena de substituirmos o estereótipo do envelhecimento assexuado por um outro imperialismo, que decretaria anormal quem referisse menor apetência pelo sexo.
A enorme variação de atitudes e comportamentos justifica também uma constatação reconfortante. No passado exagerámos atrozmente a rigidez dos mais velhos; eles aceitam e utilizam as mudanças no mundo que os rodeia. A curiosidade pela Net é um bom exemplo. O sucesso de drogas como o Viagra é outro, bem como a exigência, por parte de muitas mulheres, de terapêuticas semelhantes para o sexo feminino (outro dia falarei dos riscos que comporta a prescrição eufórica ou simplesmente desonesta de tais medicações). Se conscientes dessa inesperada mas real abertura, os técnicos poderão estar a caminho de deliciosas surpresas. Dizia uma noiva americana, de 76 anos, ao seu médico: “A nível do sexo, nunca experimentei nada de muito original durante o meu primeiro casamento. Mas se o doutor o recomendar, estou pronta a fazê-lo agora”. O livro não diz que receita o colega lhe passou!
Mas se os mais velhos partilham interesses com os jovens, o mesmo se verifica, infelizmente, com as angústias. As alterações da função sexual relacionadas com o envelhecimento são-lhes desconhecidas. E por isso mais assustadoras: não são apenas os adolescentes a precisarem de – pelo menos! – Informação de boa qualidade.
E imaginem (os que por lá não passaram) a angústia de quem fica sozinho e não acredita poder ainda despertar o desejo que fala através de um olhar maroto ou do convite hesitante para jantar. Há gente que sufoca sob uma solidão sofrida e não escolhida, simplesmente porque o espelho confirma os seus receios: “credo!, quem me pode achar piada?”. Os adolescentes dizem o mesmo. A insegurança não tem idade.
É habitual que as mulheres se refiram ao envelhecimento sugerido pelo espelho com voz mais amarga e saudosa. Poderia ser de outra forma? As barrigas de cerveja ou calvícies deles, embora preocupando-os mais do que antigamente, não assumem proporções tão ameaçadoras no “mercado erótico”. A beleza obrigatória (ou pelo menos desejável) permanece duvidoso privilégio feminino. Mas, se as consequências estéticas do inexorável passar dos anos já pesam diferentemente sobre ambos os sexos, uma palavra espreita as mulheres em cada esquina: menopausa.
De acordo. A pouco e pouco a terrível equação entre fertilidade e feminilidade vai-se esbatendo, elas sacodem o fardo que lhes foi imposto e percebem que não se esgotam como pessoas nas salas de parto.
Mas seria ingénuo admitir que a carga simbólica desapareceu por completo, continuo a escutar mil variações sobre a mesma melodia: “Doutor, talvez seja burrice, mas é como se algo acabasse”. Em muitos casos o lamento chega cedo e inesperado, por menopausa relacionada com extracção de útero e/ou ovários ou devida a quimioterapia. Nestas ocasiões, em que a doença, cruel, apressa a natureza, a melhor preparação dos técnicos de saúde é urgente, demasiadas mulheres juntam ao receio pela vida o de terem morrido para o sexo. Ouço-as em consulta culpando a mesa de operações pelas queixas sexuais: “Estou assim porque me tiraram tudo!”.


